Quem nunca sofreu por amor?


“Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar” (Milton Nascimento- Travessia )


Eles se conheceram na escola, não era a intenção, mas se apaixonaram e resolveram se aventurar no mundo do amor. Ela foi para outro estado fazer medicina e ele ficou realizando o sonho de cursar jornalismo. O sentimento foi crescendo, as famílias ficaram amigas, o casal viajou várias vezes nas férias, resistiram à distância, amadureceram juntos, em fim, viveram momentos inesquecíveis.

Mas um dia as coisas pareceram não ter mais o sentido de antes. Perceberam que viviam metas diferentes, não estavam dispostos a mudar mais um pelo outro, queriam viver a vida de jovens, conviver com os amigos, sair sem ter hora pra voltar. Depois de refletir a por quase um ano, ele decidiu colocar um ponto final no relacionamento de três anos.

Ela chorou, ele também. Ele guarda há seis meses na estante um porta-retrato, com a foto dos dois. Já teve oportunidade de começar outros relacionamentos, mas alega que sempre procura as qualidades da ex, mesmo não querendo reatar. Ela ainda não conseguiu esquecer, mas está conhecendo outras pessoas.

Assim como esses dois jovens, quase todas as pessoas da sociedade ocidental (onde o casamento é uma escolha pessoal), já viveram o drama de um relacionamento rompido. A dor sempre estará lá, porém, a forma de vivê-la que encontra diversas formas de se manifestar.

O psicólogo Renato Souza explica que a dor advém do sentimento de perda de alguém e que as reações diversas acontecem de acordo com o nível dos relacionamentos e sentimentos. “Tudo depende do nível de sentimento que havia. A ruptura de alguém que amava e estava há muito tempo junto é bem diferente de outro que só viveu uma paixão momentânea, a maior dor das pessoas é de perder aquilo que o outro lhe oferecia de bom, o que na psicologia chamamos de reforçadores”, destaca.

Renato afirma que o sentimento é algo que não se escolhe, mas é preciso trabalhar a forma como é expresso, ele também ressalta que a angústia tanto de quem deixa, quanto de quem é deixado, advém das mudanças impostas por esta situação. “Toda mudança gera angústia. Quando existe uma mudança de casa, emprego ou cidade a ansiedade e angústia sempre aparecem, pois, algo diferente está por acontecer, assim ocorre com o fim dos relacionamentos, estar solteiro, se envolver com outra pessoa, ser deixado por alguém é uma nova situação, que gera medo do desconhecido”, pondera.

“Eu queria manter cada corte em carne viva
A minha dor em eterna exposição e sair nos jornais e na televisão
Só prá te enlouquecer até você me pedir perdão
Eu já ouvi 50 receitas prá te esquecer
Que só me lembram que nada vai resolver
Porque tudo, tudo me traz você
E eu já não tenho prá onde correr” (Leoni – 50 receitas)


Nádia começou namorar Fábio aos 18. Juntos há quatro anos, eles pensavam em casamento e já estavam com a data do noivado marcada para o aniversário dela. Estavam olhando apartamentos e acertando detalhes. Nádia sempre incentivou o namorado a estudar e ingressar em um curso superior, porém, quando isso aconteceu, Fábio conheceu outra pessoa e somando-se a um dia de desavença, que ela pediu um tempo, ele aproveitou o gancho para terminar o relacionamento definitivamente.

Passaram-se dois anos, e parece que a ferida continua aberta. Tudo lembra Fábio, as músicas, os restaurantes, as ruas, as datas comemorativas e mesmo que às vezes engate algum relacionamento, ela confessa que de noite chora de saudade do amor antigo.

Segundo Renato Souza, o fator de maior dificuldade para se superar uma separação é deixar pra trás as lembranças e a sensação de completude que o outro gerava. “Em muitos relacionamentos as pessoas ficam tão próximas e dependem tanto umas das outras, parece que elas perdem a capacidade de viverem sozinhas, a sensação é de ter sido roubada uma parte de si”, acredita.

Ele alerta que para esquecer alguém, o primeiro passo é partir do um desejo pessoal de cicatrizar a ferida aberta. “Mesmo doendo, mesmo com todo sofrimento é preciso tomar a decisão de superar, quanto maior o tempo que se demora para dar esse primeiro passo, mais tempo levará para a recuperação. Quando alguém cultiva muito tempo esse sofrimento, talvez não queira acreditar que chegou ao fim, pois alimenta esse sentimento e não aceita essa mudança”, alerta.

De acordo com Souza, um bom começo para esse processo de retomada da vida é fugir dos estímulos que lembrem o ex, pois, quanto menos houver a exposição desses elementos, mais rápido pode-se esquecer, ou seja, deixar de ouvir a música que marcou o relacionamento, não freqüentar locais onde possa haver um encontro, ou simplesmente parar de fuçar no facebook em busca de notícias, podem ajudar na superação.

Mas como ninguém, é um computador, programado para agir sem sentimentos, a recaída é um fator normal nesse processo e contar com o apoio dos amigos e familiares, sempre é uma boa idéia. Eles vão ouvir os lamentos, as mágoas e incentivar a seguir por um caminho que muitas vezes é obscurecido por tantas experiências negativas.


10 mandamentos para quem quer retomar a vida após o fim de um relacionamento

A jornalista Fabrícia Hamu, é formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica). Todas as semanas ela escreve uma coluna voltada para as mulheres no site da rede Record “A Redação”. Hoje, ela dá dicas a quem terminou um relacionamento e precisa se reerguer.
Dez dicas para recomeçar com o pé direito:

1- Quem acabou foi o relacionamento amoroso, não a sua vida. É claro que o lado afetivo conta muito, mas a vida de uma pessoa não se resume a ele. Lembre-se que para ter equilíbrio é importante investir no lado profissional, familiar e nos seus interesses pessoais;
2- Evite reler antigos e-mails, bilhetes, cartões, rever vídeos, filmes, fuçar nas redes sociais do outro, enfim, resista à tentação de remexer no passado. A ruptura, por si só, já é dolorosa. Dispense os requintes de crueldade;
3- Muitas pessoas tendem a se fechar quando estão num relacionamento amoroso, esquecendo dos amigos e até dos parentes. Se esse for o seu caso, não tenha vergonha e reative os contatos antigos. Procure essas pessoas, peça desculpas pela ausência e mostre que as quer de volta para o seu convívio;
4- Não generalize. Nem todo mundo trai, nem todo mundo mente compulsivamente, nem todo mundo é indeciso. As pessoas são diferentes e é justamente aí que está a graça da coisa. Abra-se para o novo e se surpreenda com a vida;
5- Invista em algum hobby ou curso do seu interesse. Pode ser um esporte, um curso de língua estrangeira, uma aula de dança, ou qualquer outra atividade que você gostar. É uma ótima oportunidade de fazer novos contatos e espairecer;
6- Viaje. Sempre e, de preferência, para destinos ainda não conhecidos. É uma ótima maneira de conhecer pessoas e culturas diferentes, expandir os horizontes e arejar as ideias;
7- Mude a rotina. Vá a bares, restaurantes, pubs e shows diferentes do que costumava frequentar com o parceiro. Permita-se vivenciar novas opções de diversão;
8- Reforce sua autoestima. Cuide da saúde, melhore sua aparência, cubra-se de elogios e de ações que possam incentivá-lo a se sentir bem e seguro. Não se esqueça que as pessoas o veem como você se vê;
9- Invista em autoconhecimento. Se você não tem claro o que espera de um parceiro e de um relacionamento, se não sabe ao certo o que lhe faz alegre nem triste, procure ajuda psicológica. Você é o único responsável pela sua felicidade;
10- Tudo começa na mente. Por isso, espante os pensamentos negativos e obsessivos. Pensamentos positivos geram sentimentos agradáveis e construtivos

O que a noite da Avenida JK não revela


Em novembro de 2011, um adolescente trouxe a grave denúncia de que em Anápolis existe uma suposta rede de tráfico de travestis advindos do Pará e Maranhão, muitos deles sem ao menos terem completado a maior idade. O menor indicou que havia sido aliciado em sua cidade natal no Pará, com a promessa de remodelar o corpo, através da aplicação de silicone e megahair (procedimento para alongar os cabelos), entre outros atributos.

Porém, ao chegar a Anápolis ele alegou que se deparou com uma realidade totalmente adversa da prometida, adquirindo dívidas que iam desde a passagem à hospedagem em uma casa que abrigava outros travestis.
Em novembro, ele conseguiu fugir e o caso vem sendo investigado por autoridades no Pará e Goiás.

Tal acontecimento levou na tarde da última quarta-feira (4), em uma ação conjunta entre o Grupo Especial de Repressão a Narcóticos (Genarc), Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais (Depai) e Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente (DPCA) à prisão de Josiel Paulista Vieira, conhecido como Érica Cafetina e outros 15 travestis foram conduzidos à delegacia.

De acordo com a delegada titular do Depai-Dpca, Kênia Batista Dutra, Josiel é apontado como proprietário da casa que abriga os travestis, supostamente aliciados por ele. “Está comprovado que ele mantém a casa para abrigar os rapazes travestis, com intuito de estimulá-los à prática sexual a fim de obter vantagens com os programas”, destaca.

“Faltou maior apoio das autoridades de Goiás”, destaca delegada responsável pelo caso no Pará

A delegada Christiane Lobato, titular da Divisão de Atendimento ao Adolescente (Data), em Belém no Pará, falou com exclusividade à Folha 670 revelando que desde novembro comunicou a autoridades como Ministério Público, Judiciário, Polícias Federal e Civil de Goiás sobre o caso. “Existe desde novembro a ocorrência de um adolescente tido como desaparecido, que conseguiu fugir, eu pedi apoio em Goiás, mas parece que não houve esforço, nós já tínhamos enviado desde aquela época, o endereço e o nome profissional de Josiel”, enfatiza.

Lobato ressalta que o possível tráfico de pessoas para utilizá-los como travestis em Anápolis é uma situação antiga, assim como o funcionamento da casa, localizada no Bairro Monte Sinai, nas proximidades da Base Aérea. “Não é possível que ninguém nunca tenha visto esse local e ainda mais com essa situação”, desacredita.

A delegada afirma que até hoje não havia um mandado de prisão contra Vieira, no Pará, por falta de materialidade, porém com a chegada do processo decorrente da prisão em Anápolis, a Data também representará por prisão preventiva.


Em busca do corpo, mas sem identidade


Segundo fontes ligadas ao Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico e Pessoas (Netp), em Goiás, travestis adolescentes e adultas são convidadas a “trabalhar”, em Anápolis com a promessa de receberem tratamentos estéticos, como silicone nos seios e glúteos, megahair e aplicação hormonal, que conseqüentemente lhes modelarão, trazendo características femininas e portanto, aumentam os lucros nos programas.

Christiane Lobato afirma que esses procedimentos custam caro para o travesti, uma vez que eles adquirem uma dívida duas vezes maior que o preço cobrado na aplicação, porém, o maior risco está na qualidade e procedência dos materiais estéticos principalmente o silicone.

De acordo com a delegada, na maioria das vezes é aplicado silicone industrial, usado em carros e lubrificação das peças de avião, podendo causar reações alérgicas, fibroses, necrose deformações severas no corpo e dificuldades para andar, além de mortes por infecção generalizada.

Dentro desta perspectiva, na casa onde foi feita a prisão de Josiel foram encontradas agulhas, que de acordo com os travestis, eram utilizadas para aplicação de silicone industrial.

Fatos como esse, ainda são denunciados por Lobato. “Mesmo com as consequências do uso desse produto, os travestis são obrigados a irem para a rua, elas são seduzidas pela mudança de corpo, mas a realidade é outra e se ao implantarem silicone industrial ficarem doentes, mesmo assim precisam trabalhar”, enfoca.

Senzalas invisíveis do século XXI

As autoridades em defesa das pessoas traficadas são unânimes, que o tráfico de mulheres (como já mostramos na edição 10) e travestis possui as mesmas características desde a abordagem, até nas práticas que mantém o explorado ligado ao explorador.

Essas mesmas autoridades revelam que as quadrilhas são perigosas, violentas, além de estarem livres na sociedade e envolvidas infimamente com outras contravenções como tráfico de drogas, armas, menores e mulheres, o que lhes leva a crer que possuem proteção de indivíduos influentes.
A delegada Christiane Lobato revela
que existe uma estrutura de vigilância diária e um esquema de escravidão por dívida, ou seja, ao chegar, o aliciado descobre que precisa ressarcir o cafetão, na passagem, despesas de moradia, alimentação, procedimentos estéticos e porcentagem dos programas, vivendo em regime de escravidão até quitar suas dívidas.

E da mesma forma como ocorre no tráfico de mulheres, os aliciadores de base, ou seja, aqueles que abordam os travestis com as propostas de mudanças de vida, corpo e condição monetária, são indivíduos de seu convívio. “As vítimas nunca vão assumir sua condição e denunciar, pois os aliciadores são pessoas que de alguma forma possuem algum vínculo, sabem onde elas moram e fazem ameaças”, explica a delegada.

Imputações

Josiel Paulista Vieira, responderá pelos crimes inafiançáveis de favorecimento à prostituição e rufianismo, que consiste na prática do agente tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar por qualquer pessoa, homem ou mulher, que exerça a prostituição, podendo ser condenado por até cinco anos de reclusão.

Os 15 travestis apreendidos serão ouvidos, terão antecedentes criminais pesquisados e posteriormente liberados. Embora no momento da abordagem não tenha sido encontrado nenhum menor, o próprio Vieira, confessou que em outras ocasiões a casa já recebeu as possíveis vítimas.

De acordo com a delegada Kênia Batista Dutra, a investigação que acontece no Pará, por tráfico de seres humanos pode influenciar em outras acusações em Anápolis, e que ela aguarda a documentação de Belém.

ONU alerta que 2,4 milhões de pessoas no mundo são vítimas de tráfico humano

Na última terça-feira (3), o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) informou que cerca de 2,4 milhões de pessoas no mundo foram vítimas de tráfico de seres humanos pelo menos uma vez.

O diretor executivo do Unodc, Yuri Fedotov, disse que em 17% dos casos as pessoas são submetidas a trabalhos forçados. De acordo com ele, uma em cada 100 vítimas do tráfico é resgatada. Ele apelou à comunidade internacional para que sejam tomadas medidas a fim de conter o avanço do tráfico de pessoas.

Página doce

























Feliz Páscoa!!!

A menina do vestido azul


“Enquanto passa preguiçosamente o tempo com sua irmã, Alice vê o Coelho Branco de colete, carregando um relógio de bolso. Supreendida segue-o até a toca do coelho e cai nele, revelando-lhe a sua longa profundidade como um poço e as suas paredes repletas de prateleiras cheias de objetos estranhos, quadros e de livros. Após uma aterisagem segura num átrio, Alice vê uma pequena mesa de vidro maciço e em cima dela havia uma pequena chave dourada. À procura de fechaduras correspondentes, descobre, atrás de uma cortina, a pequena porta e através desta Alice vê maravilhada um lindo jardim. No entanto, a porta é muito pequena para ela conseguir entrar. Mas devido a uma pequena garrafa com uma etiqueta BEBA-ME, Alice diminui de tamanho ao bebê-la”

Alice no País das Maravilhas, a obra mais célebre do inglês Lewis Caroll conta a história repleta de fantasia de uma menina que cai numa toca de coelho que a transporta para um lugar fantástico e mágico.

Nicole, uma Anapolina de seis anos, não conhece Alice, tampouco viveu em sua época, mas as duas têm em comum além da infância, a vida num mundo incompreensível para a maioria das pessoas. Ela é filha da jornalista Rita Maura Boarin, e desde que a menina completou um ano percebeu que algo estava diferente do desenvolvimento natural das crianças daquela idade.

Desde então, a pequena Nicole entrou na toca do coelho, e depois de uma peregrinação de dois anos, com diagnósticos imprecisos, dúvidas e angústias para tentar entender os motivos que levaram a criança a entrar numa dimensão tão diferente: o mundo do autismo.

Segundo, o Diagnóstico Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM), autismo é um tipo transtorno global do desenvolvimento, sem cura, que se manifesta em crianças até os três anos de idade e compromete aspectos físicos, psicológicos e sociais. Trata-se de um desenvolvimento acentuadamente comprometido em termos de interação social e comunicação, além de um repertório comportamental muito restrito de atividades e interesses.

De acordo com o médico psiquiatra César de Moraes, indicadores que o processo de desenvolvimento da criança não vai bem podem ocorrer antes dos seis meses de idade. Crianças que choram demais ou são vistas como muito quietas pelos pais, crianças que têm pouco contato visual, não mantêm posição antecipatória ou não prestam atenção aos eventos familiares principais podem estar apresentando sintomas iniciais da síndrome autista. As alterações no ritmo do desenvolvimento da criança também costumam ocorrer precocemente.

Na maioria das vezes o autismo se manifesta no sexo masculino, fato que de acordo com o mestre em psicologia clínica, Artur Vandré, a ciência desconhece. “Uma hipótese vem de pesquisas feitas no Canadá, no Hospital for Sick Children, em Toronto. Os estudiosos identificaram um gene que pode explicar a maior incidência do autismo entre os meninos. A hipótese é que eles apresentam uma alteração de DNA no cromossomo X.

Foram pesquisados os genes de dois mil indivíduos com autismo e comparados com indivíduos sem a síndrome. Um por cento dos meninos com autismo tinha mutações no gene PTCHD1, encontrado no cromossomo X. As irmãs desses meninos, mesmo com a mesma mutação, não foram afetadas. Isso é possível pela razão de que enquanto os meninos carregam o X das mães e o Y dos pais, naturalmente, as mulheres têm dois cromossomos X. Nesse sentido é como se o cromossomo sadio anulasse o “doente”. Mesmo assim as pesquisas vão continuar, pois não há nada concluído necessariamente”, explica.
Por conta da síndrome se manifestar majoritariamente em pessoas do sexo masculino, fora instituída a cor azul, como símbolo da causa de apoio à inclusão e luta pelos direitos dos autistas.

Direitos estes que são cerceados por falta de informação e desamparo de uma constituição pertinente às pessoas portadoras dessa deficiência, pois, ainda tramita no Senado um projeto de Lei que prevê a inclusão, como proteção contra exploração e acesso a serviços de saúde, à moradia e à assistência social, estendendo o direito à jornada especial ao servidor público que tenha sob seus cuidados cônjuge, filho ou dependente autista, além da possibilidade de ser incluído no sistema regular de ensino.

Ou seja, atualmente, os cerca de dois milhões de autistas no Brasil, não têm os mesmos direitos atribuídos às pessoas com deficiência como, por exemplo, cota de vagas de emprego em empresas com mais de cem funcionários. “Em alguns lugares do país, como Anápolis, o autismo não é tido como deficiência, mas é preciso que as pessoas saibam que eles possuem múltiplos problemas e precisam de um tratamento específico e intensivo, para que possam se desenvolver, com intuito de depois não ficarem pendurados no SUS”, destaca Rita Boarin.

Inclusão e preconceito

Embora, eles não possuam nenhuma característica física que remeta à limitação, como no caso da Síndrome de Down, os autistas têm algumas limitações que muitas vezes são incompreensíveis a um interlocutor desavisado da deficiência dessa criança.
Um autista é muito sensível à luz e ao som, não conseguindo absorver todas as informações que lhe são oferecidas, podendo gerar uma crise, muitas vezes em ambiente público. Rita relata que ao notar uma situação tensa para Nicole, logo lhe oferece a chupeta, pois esta lhe tira o stress e que muitas pessoas não têm receio de criticar o ato pela idade da menina, ou quando uma crise afeta a criança em público, os olhares e comentários maldosos censuram mãe e filha, por julgarem se tratar de uma birra por um mimo qualquer.

A situação se agrava quando o assunto é educação. As escolas de ensino regular são obrigadas a acolher crianças com essa limitação, mas muitas não têm preparo adequado. No caso de Nicole, ela precisou passar por três escolas até se adaptar.
A primeira escola pertencia a uma entidade particular e o maior problema foi a troca repetitiva de professores, pois, o autista, não suporta mudanças repentinas e seu mundo determina uma rotina pré estabelecida.

A segunda escola foi um projeto da rede estadual, em uma classe unicamente de autistas, mas a mãe foi aconselhada a não prosseguir com esse ensino, para que Nicole pudesse se adaptar a um convívio em sociedade e não adquirisse mais maneirismos, ou seja, manias típicas dessa síndrome, como andar na ponta dos pés, movimentos involuntários com as mãos, dentre outros.

A terceira experiência acontece em um CMEI e têm dado certo. Um monitor acompanha o desenvolvimento escolar de Nicole junto com a classe e de acordo com Rita, têm auxiliado para uma inclusão efetiva. Ela conta que ao chegar esses dias na entrada da escola, uma coleguinha abraçou Nicole e a levou de mãos dadas para a classe. “Para uma criança que não brincava e tinha uma grande dificuldade de socialização, atos como esse são uma grande vitória”, comemora.

Um mundo e seus repertórios

O psiquiatra César de Moraes aponta que crianças com autismo mostram, em geral, têm uma melhor performance nas tarefas não verbais e visuoespaciais do que nas tarefas verbais. “Sintomas comportamentais associados à síndrome incluem hiperatividade, curto tempo de atenção, impulsividade, comportamento agressivo, acessos de auto-agressividade e agitação psicomotora”, destaca.

Algumas pessoas com autismo têm respostas extremas aos estímulos sensoriais, tais como hipersensibilidade a luz, som, toque, e fascinação por certos estímulos auditivos ou visuais. Distúrbios do sono e da alimentação também são comuns nessas pessoas, além de medo excessivo em situações corriqueiras ou perda do medo em situações de risco.

Os indivíduos autistas apresentam uma insistência na ‘mesmice’, que se apresenta pelo seu comportamento inflexível e suas rotinas e rituais não funcionais, por exemplo, Rita cita que uma boneca para as demais crianças seria ninada, mas para o autista, a principal diversão seria brincar de abrir e fechar os olhinhos.

Movimentos corporais estereotipados são comuns e apresentam-se sob a forma de "flapping", balanceio da cabeça, movimentos com os dedos, saltos e rodopios. “Essas reações motoras se justificam devido ao desenvolvimento psicomotor ser comprometido em função de algumas áreas cerebrais serem afetas em termos fisiológicos e neurológicos”, explica o psicólogo Artur Vandré.

Mesmo a doença sendo considerada incurável, a esperança de pais como Rita é grande, já que o brasileiro Alysson Muotri, na Universidade da Califórnia, que conseguiu "curar" um neurônio "autista", de um rato em laboratório.

Com a cura ou não, a maior luta atual é pela dignidade e respeito do autista. Por este motivo, comemora-se na próxima segunda-feira (2), o dia deles, onde monumentos do Brasil todo serão iluminados de azul.

Um azul, que possui muito mais que mero croma, e sim um sinal de que a sociedade valoriza o mundo diferente, assim como o da Nicole, a menina que usa um vestido azul.

Uma situação de sombras



Entrevistei, Dom José Luís Azcona Hermoso, bispo da prelazia de Marajó, no Pará. Ele é apontado como um ícone na luta contra o tráfico de pessoas e exploração sexual de menores. Por suas denúncias tem seu nome inscrito na lista negra dos "barões do tráfico". Segundo ele, o tráfico humano está infimamente atrelado a outras três atividades ilícitas: tráfico de armas, narcotráfico e exploração sexual de menores. Dom Azcona ressalta que a desarticulação das quadrilhas que cometem esse crime é extremamente difícil, pois, este é um negócio bilionário que conta com a conivência de autoridades.

Qual é a realidade do Brasil no tráfico de seres humanos?

A situação do Brasil no tráfico de seres humanos é uma situação de sombras. Não existe uma estatística científica sobre essa realidade de flagelo humano que se abate sobre todo o Brasil, mas realidades conexas com o tráfico humano, como por exemplo, exploração sexual de menores, turismo sexual dão uma visão desta problemática que logicamente permanece oculta pelas próprias razões do negócio de tráfico de pessoas pelo estrangeiro e também pelo controle de organizações de nível internacional, que exercem influência até sobre meios de comunicação, de maneira que não é fácil o combate contra essa realidade e tão pouco o conhecimento da mesma, já que repito, o grande fenômeno da venda de pessoas leva consigo a ocultação, o segredo criminoso e a manipulação cuidadosa controlada por grandes organizações mundiais.

O tráfico ocorre por conivência de pessoas com grande influência social, como políticos?

Não se pode provar. Não temos essas provas, pois elas levariam à denúncia e consecutivamente a processos. Mas devido à interação do tráfico de pessoas com narcotráfico, tráfico de armas, a interação e a organização de muitos casos dessas quatro atividades criminosas, leva a pensar que existem políticos no meio e sem dúvida nenhuma ganham muito dinheiro. São R$ 32 bilhões anuais bilhões que estão em jogo, no mundo através do tráfico humano. Sem dúvida nenhuma podemos deduzir que alguns políticos estão envolvidos nesse tipo de atividade criminosa.

Quem é o traficante de pessoas?

O traficante pode ser qualquer pessoa. Ele pode iniciar desde um extrato social baixo e crescer com as máfias organizadas, até tomar o controle, como acontece no tráfico de drogas. Não se pode definir muito bem quem é que controla e leva para frente esse tipo de atividade, mas, sem dúvida nenhuma, são pessoas com forte poder econômico, e portanto, eles controlam um capital, investindo e produzindo através da escravidão humana, vendendo e comprando pessoas. Por exemplo, em 2007, um colaborador nosso conseguiu, com ajuda da Polícia Federal, se infiltrar em uma dessas máfias, que levava mulheres, incluindo até mesmo menores, para a Guiana Francesa e prenderam o grupo e o chefe da máfia, no Oiapoque, fronteira com a Guiana. Em dez horas desde a prisão deste criminoso, se apresentaram seis advogados para tirar da cadeia esse chefe da máfia. Se em dez horas esse grupo disponibilizou seis advogados, sem dúvida, muito qualificados, isso indica que a retaguarda tem muito dinheiro e que os organizadores são grupos poderosos. Em segundo lugar, esses grupos são inescrupulosos, como se pode comprovar pelo desfecho desse fato. O criminoso ficou somente um mês na cadeia, uma vez liberto, comunicou por telefone ao homem que tinha se infiltrado na organização criminosa dele dizendo: “eu vou te matar”. Esta ameaça apareceu na Revista Época e neste mesmo ano, no dia 9 de setembro era eliminado esse homem que descobriu o esquema do tráfico de mulheres para a Guiana Francesa. Isso supõe que eles são um grupo econômico organizado e ao mesmo tempo sem escrúpulos agindo diretamente na eliminação das pessoas, contra toda a lei. Eles são grupos paralelos, que a sociedade tolera.

Qual é o perfil da pessoa traficada?

Entre dois motivos, fundamentalmente é a necessidade econômica, e junto com ela, a proposta ilusória de paraísos, que há nessa vida, em outros lugares do mundo reservados especificamente para essa mulher. Na nossa região, em meio do ambiente de pobreza extrema, que se encontra nossa população, são extraídas das vítimas, voluntárias muitas vezes, e em outras ignorantes, o que de fato as aguarda nesse tipo de tráfico humano. Se já em maio de2009, o programa da Globo, Fantástico, transmitiu uma notícia sobre a venda de pessoas no Brasil, aqui no município de Portela, onde o jornalista supostamente comprava de uma mãe, uma menina de 17 anos por R$ 500,00 e a de 10 anos, por R$ 10,00 ou quatro louras (cervejas), para passar uma noite. Esse detalhe é um sinal, que responde a sua pergunta. Nesse meio ambiente de miséria, econômica e humana é que são levadas essas mulheres para o fim do mundo para serem compradas e vendidas como animais de estimação que valem dinheiro.

Uma vez dentro desse esquema, existe a possibilidade dessas pessoas voltarem para sua realidade de origem?

É muito difícil, por aqui os casos que conhecemos são de tristeza. Por exemplo, uma mulher traficada para a Espanha, na cidade de Saracura, estava se prostituindo, e ao tomar uma dose excessiva de êxtase, perdeu o controle de si mesma e foi repatriada. Ela retornou a Portela (PA), seu município, mas, ficou para sempre perturbada, uma mulher que não tem capacidade de socialização, é agressiva, completamente insana, apesar de todos os tratamentos. Outras não têm oportunidade de voltar, pois são assassinadas, como por exemplo, ano passado, uma menina de 25 anos, aqui de Breves, foi assassinada na Guiana Francesa, para roubarem o dinheiro que tinha, por parte de garimpeiros, possivelmente. Esses ambientes para os quais elas vão e são vendidas, dificultam muito o retorno, por que no momento determinado, o preço que elas valem prevalece sobre a própria dignidade da vida humana, portanto, muitos casos que conhecemos é de um final trágico, se não com morte, existe uma situação de escravidão permanente, muito difícil para se libertar.

Existe algum projeto governamental para investigar esses casos?

É interessante como historicamente, a partir do Marajó, as denúncias que junto comigo, dois irmãos bispos, Dom Erwin Kräutler, de Altamira (PA), e Dom Flávio Giovenale, de Abaetetuba(PA), que também estão ameaçados de morte, como eu, por diversas causas, e uma delas é a exploração sexual de menores, a partir daí se levantou um clamor forte, que levou a uma CPI contra a exploração sexual de menores, repito, uma atividade muito conexa com o tráfico humano, sobretudo mulheres, e mais particular, adolescentes. Isso ganhou uma enorme repercussão, aqui no Pará e em toda a nação. Ao mesmo tempo no Senado, o senador Magno Malta levou para frente, o que paralelamente estamos trabalhando aqui, algo que todo o Brasil conhece, que foi a CPI contra a exploração sexual de menores. Uma das conclusões foi que devido à grande conexão entre as duas atividades, é necessário organizar uma CPI, no Senado que lute contra o tráfico humano. Aqui no Pará, já acontece há nove meses, uma CPI para a investigar o tráfico de mulheres, para fins sexuais e têm se descoberto, que não somente aqui no estado, existem atividades de organizações e grupos de tráfico humano de órgãos, não posso especificar mais, porém essa é a realidade. Esta comissão também tem denunciado abusos contra adolescentes e menores, que iludidos com promessas de um futuro esportivo brilhante, são transportados irregularmente para São Paulo e Rio de Janeiro, a fim de serem comprados ou alugados, para jogarem futebol.

O senhor é apontado como uma das pessoas marcadas pra morrer, em decorrência de suas denúncias. O senhor tem medo?

Bom, essa é a pergunta que todo jornalista faz. Eu penso na morte com muita freqüência, quando, por exemplo, pela manhã abro a porta para ir à capela da casa do “bispo”, para rezar, penso “por traz dessa porta pode estar o meu assassino”. Quando tenho de atravessar o corredor que me leva para a capela, tem uma sacada e penso, “dentro daquela sacada, um rifle pode acabar facilmente com a minha vida”. Tem uma sombra no amanhecer e o pensamento da morte me acompanha, não somente nesses momentos, mas quando vou ao interior, o barco que estou, no mato, sobretudo os rios pequenos, pois, possuem os igarapés, penso, que em uma facilidade qualquer, com um par de metralhadoras podem acabar com o nosso barquinho da paróquia. Esse pensamento me acompanha muito, porém, Deus é mais e mais forte, posso dizer claramente que Ele tem tirado toda angústia e ansiedade, pela graça Dele, unicamente, não tenho perdido um minuto de sono, e mais ainda, penso que se um dia puder entregar meu sangue por Jesus, que derramou o seu preciosismo, por um pecador tão grande como eu, para mim será verdadeiramente o dia mais feliz da minha existência. Se um dia eu puder dar a minha vida por esse povo, aqui do Marajó, para mim será o final do meu ministério episcopal, na maior alegria, na maior glória, para honra de Deus e realização para aquilo no qual Ele me enviou aqui, de maneira que isso é graça de Deus, sou consciente do perigo que corro, mas ao mesmo tempo estou muito mais consciente da herança, para qual Cristo me escolheu.

Anápolis na rota do tráfico de mulheres

O Texto e a foto são de minha autoria

O que restou para a família de Simone foi uma foto, a sensação de impotência, impunidade, além do vazio eterno ocasionado pela saudade. A jovem de 23 anos deixou o Brasil em busca de melhores condições de vida na Espanha.

Aliciada por uma quadrilha que trafica mulheres para fins sexuais, Simone morreu misteriosamente no país desconhecido, apenas três meses após sua chegada. Até hoje, os pais buscam explicações para o fato e alegam que nunca mais foram os mesmos desde o falecimento precoce da filha.

Simone faz parte da obscura estatística, que não possui números precisos para medir a quantidade de seres humanos vendidos e explorados como animais fora do país. Os ativistas na luta contra essa realidade, como o bispo de Marajó (PA), afirmam que isso acontece, pois, as quadrilhas são grupos tolerados pela sociedade, por seu alto poder econômico e a alta capacidade de inescrupulosamente agir diretamente na eliminação das pessoas, que as denunciam.

O tráfico humano para exploração sexual é a terceira maior fonte de renda ilegal do mundo, estima-se que por ano, quase um milhão de pessoas são traficadas, destas 98% são mulheres, que geram mais de 32 bilhões de dólares ao mercado negro. O Brasil lidera o vergonhoso ranking dos maiores exportadores de mulheres, com 85 mil vítimas.
E dentro dos números brasileiros, Goiás figura como um dos campeões nacionais no tráfico de pessoas, sobretudo mulheres e Anápolis é rota para essa viagem, muitas vezes sem volta. Para o membro do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP), o juiz Rinaldo Aparecido Barros, muitos aspectos auxiliam para esta perspectiva, entre eles, a beleza da mulher goiana, mão de obra predileta e prioritária para os traficantes, que fazem falsas promessas de emprego como babás, modelos e até mesmo a prostituição é apresentada como uma oportunidade mágica de enriquecimento.

Ele alega que o tráfico de mulheres é muito mais vantajoso para um traficante, que o próprio tráfico de drogas, uma vez, que a mulher explorada não é descartável e sim, pode ser reutilizada por meio de diversas vendas, sendo esse ciclo encerrado, apenas com a morte ou o enlouquecimento da vítima.

Ao chegar no país, a realidade já é outra totalmente diferente. As mulheres adquirem uma dívida com o traficante, que lhes cobra o valor da passagem, hospedagem, a exigência de uma porcentagem dos (muitos) programas que são obrigadas a realizar, além de cercearem a liberdade, subtraindo-lhe o passaporte, não permitindo que elas transitem livremente pela rua, ou falem ao telefone sem monitoramento.

Na senzala do século XXI, as escravas sexuais, são algemadas às dívidas impostas pelos “barões do tráfico”, que a cada dia aumenta, tornando-se impagável e fazendo da alforria um ato praticamente impossível.

Imputações pelos mais variados motivos geram multas absurdas, como uso de tênis, não se pode descer dos quartos de sandália, deitar no balcão, passar da hora, é proibido ir à rua com roupas curtas, as atividades exploratórias sempre devem se iniciar em um horário determinado. Quem infringe essas normas paga multa. As mulheres também pagam multa por cada cliente recusado, ou seja, é praticamente impossível se libertar desse cativeiro e para conseguir dar conta das “regras”, essas mulheres se vêem obrigadas a fazerem uso de drogas e álcool.

Mulheres de vida fácil?

Entre promessas de despesas pagas, emprego garantido e muitos sonhos de uma vida melhor, as vítimas do tráfico internacional de pessoas, têm como destinos mais freqüentes Espanha, Suíça e Portugal.

De acordo com a titular da Delegacia de Defesa Institucional, Marcela Rodrigues, o (a) aliciador (a), geralmente aborda as jovens oferecendo trabalho no exterior ressaltando sua beleza, suas características corporais e a facilidade para ganhar dinheiro. “Elas sabem dos desejos e das dificuldades dessas jovens e sabe convencê-las porque apresentam sua própria trajetória como vitoriosa. E, ainda, ressaltam a superioridade da mulher brasileira em relação às européias no que concerne à sexualidade e que seriam as preferidas dos homens estrangeiros. Esse discurso está todo baseado na subalternidade e na condição heterônoma da mulher”, destaca.

Por incrível que pareça, muitas vezes, o aliciador é uma pessoa próxima, e possui com a vítima, relações que envolvem afetividade. Para a psicóloga Cíntia Maia, da Diretoria de Políticas Públicas para as Mulheres, como já há um vínculo com o aliciador, existe um maior respaldo na hora do convencimento, que envolve promessas de uma vida farta e dinheiro em abundancia.

Vislumbradas com essas possibilidades elas encaram tais propostas, como uma oportunidade de crescimento, já que dados da Polícia Federal apontam que elas são em maioria, jovens de baixa renda, entre 18 e 30 anos, geralmente mães solteiras e responsáveis pelo sustento econômico financeiro de seus familiares.

Para Nelma Pontes, do NETP, a prostituição pode ser até uma opção pessoal, mas é preciso desconfiar do oferecimento de muitas vantagens. “Para vencer na vida, não existem facilidades demais é preciso desconfiar dessas propostas muito boas. Se a pessoa fizer uma conta matemática, o custo de vida lá é muito mais alto e para ter o mesmo padrão de vida daqui a pessoa precisa se desdobrar. Ninguém é muito bonzinho pra te ajudar na a ganhar na loteria”, critica.


Na mala muita decepção

A desarticulação das redes de tráfico humano é uma atitude arriscada e extremante difícil. De acordo com o bispo de Marajó, Dom Azcona, a atividade mobiliza bilhões e conta com a conivência de políticos e pessoas influentes, além de estar infimamente atrelado ao narcotráfico, tráfico de armas e exploração sexual de menores.

A delegada Marcela Rodrigues também expõe a dificuldade de desarticulação por conseqüência das próprias vítimas, pois há uma grande dificuldade para efetuarem denuncias e se desvincularem da rede. “A maior dificuldade para desarticular redes de tráfico de mulheres, é que as envolvidas com o tráfico têm muitas dificuldades em se perceberem como vítimas, devido ao fato do aliciador pertencer à sua convivência social; as relações são permeadas por contradições e um desejo muito grande de melhorar de vida, ser independente financeiramente e ajudar a família; e as condições de trabalho das mulheres que atuam no mercado do sexo no Brasil são difíceis e permeadas, também, pela violência”, explica.

Mesmo com as inúmeras dificuldades, já elencadas, muitas mulheres conseguem retornar ao Brasil através de instituições, como a Organização Não Governamental (ONG), “Resgate”, que possui escritórios em diversos países, e como o próprio nome revela, literalmente resgata pessoas que vivem em condições inumanas fora do país.

Uma vez, de volta à terra natal, essas mulheres enfrentam uma dificuldade imensa de readaptação, por conseqüência da história de terror vivida durante o tempo de permanência fora, além de muitas delas terem adquirido marcas irreversíveis, como as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), e o vício em álcool e drogas.

A diretora de Políticas Públicas para as Mulheres, Erondina de Moraes, ressalta que em muitos atendimentos feitos por sua diretoria, a mulher resgatada, possui bens como casa bem mobiliada e um bom carro, mas não encontra estrutura psicológica e monetária, para um recomeço em sua sociedade matriz. “Elas até têm uma casa organizada, levando as pessoas a pensarem que não há necessidade de apoio, mas o que não se sabe é que essas mulheres não têm como se manter socialmente”, acredita.

Mesmo com o NETP, um serviço governamental, que está à disposição dessas mulheres, poucas são as que buscam ajuda efetiva. Segundo Nelma, esse fato ocorre, pois existe a vergonha da sociedade, sobretudo da família. Ela também destaca que muitas não procuram o núcleo por já chegarem ao Brasil com problemas psicológicos e ainda precisarem lidar com a adaptação.


Combate educativo

As entidades têm encontrado um bom momento para resgatar as pessoas em situações exploratórias, visto que principalmente a Europa se encontra em uma crise recessiva da economia, e os trabalhos, inclusive os de cunho sexual estão em baixa monetária.

Se por exemplo, uma mulher cobrava € 100 por programa, com a crise foi obrigada a baixar seu preço para € 20, ou seja, a prostituição não gera mais riqueza como antigamente, e essas garotas, mal vêm conseguido recursos para a própria sobrevivência.

Mas, o principal foco do governo e das entidades de luta contra o tráfico humano (visto a dificuldade de desarticulação das máfias), é trabalhar com o viés educativo para a redução destes índices.

Com intuito de capacitar os órgão de repressão e de luta contra o tráfico de pessoas, será realizado no segundo semestre pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), um congresso internacional para discutir o tema. A nível municipal, o NEPT realizará em Anápolis em maio um seminário que visa debater entre sociedade, governo, Justiça e polícias a problemática do tráfico humano.

Goianos no mundo

Fabiana e o esposo, José, no Japão

Dados fornecidos pelo secretário de assuntos internacionais do governo de Goiás, Elie Chidiac revelam que existem cerca de 200 a 300 mil, goianos no exterior e muitos deles em situações deploráveis ocasionadas pela ilegalidade.

A maioria das mortes registradas, são por decorrência de assassinatos brutais, que de acordo com Chidiac, acontecem, pois esses imigrantes não têm acesso à Justiça, por que correm o risco de serem deportadas. Fruto dessa realidade, eles não têm direito de aquirir armas de fogo e procuram fazer “justiça”, com as próprias mãos com armas brancas e acabam gerando violência, como no caso de Bruno.

O secretário ainda ressaltou, que com a crise econômica, muitos goianos estão voltando pra casa, pelas baixas condições sociais oferecidas pelos países.


GOIANOS NO EXTERIOR:
200 a 300 mil.

LOCAIS E OCUPAÇÕES MAIS FREQUENTES:
EUROPA- imigraçao irregular, trabalhos de baixa escolaridade, semi-escravo, prostituição
JAPÃO E ORIENTE MÉDIO- predominantemente descendentes de cidadãos destes países, empresários e um pequeno nível de prostituição

MORTES REGISTRADAS:
2011- 8
2012- 10

TRANSLADOS:
4- cremados e financiados pelo governo
5- financiados pelo governo dos EUA
1 – financiado pela família

9 MORTES NA IRLANDA EM TRÊS ANOS:
8- assassinatos
1 – enfarto